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O erro que os grupos hoteleiros cometem ao avaliar tecnologia: comprar features em vez de resultados

A demo que corre sempre bem
Existe um ritual bem conhecido em qualquer processo de avaliação de tecnologia hoteleira. O fornecedor chega preparado, ou liga-se à videochamada, com um ambiente de demonstração impecável. Os dados são fictícios mas convincentes. O interface está limpo. As funcionalidades mais impressionantes aparecem nos primeiros quinze minutos. A equipa de vendas sabe exatamente onde clicar para provocar o efeito "uau".

A demo corre bem. Quase sempre.

O problema é que a demo não é o produto. É a versão do produto em condições ideais, com dados de demonstração, sem as integrações que o seu hotel precisa, sem a equipa que vai ter de aprender a usá-lo, e sem o histórico de suporte que vai determinar a sua experiência nos próximos três anos.

A maioria dos grupos hoteleiros toma decisões de tecnologia com base naquilo que vê na demo. E há uma razão simples para isso: chegam à demo sem nada que a preceda. Sem um documento que obrigue o fornecedor a responder, por escrito e antecipadamente, às perguntas que realmente importam. Chegam sem RFP, ou com um RFP que não serve para nada.


O que está realmente em jogo numa decisão de tecnologia hoteleira
Antes de propor um framework diferente de avaliação, vale a pena quantificar o que está em jogo.

Uma decisão de tecnologia hoteleira de média dimensão, um novo PMS, um sistema de revenue management, uma plataforma de CRM, representa tipicamente um investimento de vários anos, com custos que vão muito além da licença de software. Há o custo de implementação, a formação das equipas, a migração de dados, o tempo de adaptação operacional e, muitas vezes, o custo de integração com outros sistemas já existentes na stack.

Há também o custo invisível: o custo de uma má decisão. Uma implementação falhada ou subaproveitada num grupo com dez propriedades não é apenas um problema de TI, é uma disrupção operacional que afeta a experiência do hóspede, a produtividade das equipas e, em última análise, a receita.

Decidir com base numa demo, sem um RFP rigoroso por trás, tem um preço. E raramente aparece na proposta do fornecedor.



Porque é que as demos enganam, mesmo sem intenção de enganar
Não se trata de desonestidade por parte dos fornecedores. A demo é, por definição, uma representação otimizada do produto. O problema está do lado do comprador: aceitar a demo como evidência suficiente para uma decisão com anos de impacto, em vez de a tratar como o último passo de um processo já estruturado por um bom RFP.

Existem três razões estruturais pelas quais as demos distorcem a percepção, e que só um RFP bem construído consegue neutralizar:

1. O ambiente de demo não é o seu ambiente
As demos correm num ambiente controlado, com dados limpos e sem as particularidades do seu sistema. Quando o seu PMS tem vinte anos de dados de reservas migrados de três sistemas diferentes, o comportamento da nova solução pode ser substancialmente diferente do que viu na demo. Um RFP que descreve o seu contexto operacional real, com detalhe, obriga o fornecedor a responder a esse contexto, não a um genérico.

2. As funcionalidades demonstradas não são as que vai usar todos os dias
Os fornecedores demonstram o que impressiona, não necessariamente o que é mais usado. O relatório de revenue management com trinta variáveis é visualmente apelativo na demo. O que a sua equipa de front office vai usar às 7h da manhã num check-in atribulado é outra coisa. Um RFP bem escrito pede casos de uso concretos, ligados aos problemas reais do grupo, não uma lista de funcionalidades.

3. O suporte e a implementação são invisíveis na demo
A qualidade do onboarding, a responsividade do suporte técnico, a frequência de actualizações e a estabilidade do produto no dia a dia não aparecem em nenhuma demo. São exactamente os factores que vão determinar o sucesso real da implementação, e são exactamente os factores que um RFP consegue exigir por escrito, antes de qualquer demo acontecer.



Porque é que a maioria dos RFPs não resolve o problema
Se o RFP fosse a resposta óbvia, a maioria dos grupos hoteleiros já o faria bem. Não fazem, porque a maior parte dos RFPs neste sector tem um problema estrutural: são genéricos.

Um RFP copiado de um processo anterior, ou adaptado de um template encontrado online, é pior do que não ter RFP nenhum. Dá uma falsa sensação de rigor, mas continua a permitir que o fornecedor responda ao que quer responder, no formato que lhe é mais confortável, sem que exista uma base objectiva de comparação entre propostas. O grupo hoteleiro acaba, de qualquer forma, a decidir pela impressão da demo, apenas com um documento a mais na pasta.

Um RFP que realmente muda o resultado da decisão tem de ser construído à volta de quatro exigências.


Exigência 1: Impacto operacional real, não uma lista de funcionalidades
Um bom RFP não pergunta "o que é que o seu produto faz?". Pergunta "como resolve especificamente este problema, com que resultado esperado, e como o vamos medir?"

Antes de escrever o RFP, o grupo hoteleiro tem de definir internamente:
Qual é a fricção operacional que queremos eliminar?
Que indicador vai mover se a implementação for bem sucedida?
Qual é o valor de mover esse indicador em X%?


Estas respostas tornam-se a espinha dorsal do RFP. Cada fornecedor é obrigado a demonstrar, por escrito, como a sua solução move esse indicador específico, não a apresentar uma lista de funcionalidades que soam bem em qualquer contexto.


Exigência 2: TCO a três anos, num formato comparável
O custo de uma solução de tecnologia hoteleira não é a licença anual. É a soma de:
Taxa de setup e implementação (frequentemente subvalorizada nas propostas iniciais)
Custo de migração de dados do sistema anterior
Tempo de inactividade ou redução de produtividade durante a transição
Horas de formação da equipa, multiplicadas pelo número de propriedades
Custo de integrações com sistemas existentes (channel manager, POS, revenue management, etc.)
Custo de suporte nos primeiros seis a doze meses

Um RFP sério exige este TCO num formato fixo, igual para todos os fornecedores. Sem essa exigência explícita, cada proposta apresenta os custos de forma diferente, e a comparação torna-se impossível. Se um fornecedor não consegue ou não quer preencher esse formato, é em si mesmo uma resposta.


Exigência 3: Integração com a stack existente, com responsabilidades definidas
O hotel tech moderno não funciona em silos. Um novo PMS precisa de comunicar com o channel manager, com o revenue management system, com o CRM, com o sistema de upselling, com as ferramentas de reputação online. A qualidade destas integrações determina se o sistema vai funcionar como prometido ou se vai criar novos problemas operacionais.

O RFP deve obrigar cada fornecedor a responder, por escrito:
Que integrações estão disponíveis nativamente versus via API customizada?
Qual é o custo de manutenção dessas integrações quando um dos sistemas actualiza?
Existe documentação técnica que a nossa equipa de TI possa validar antes da decisão?
O que acontece quando uma integração falha, quem é responsável?


Exigência 4: Referências verificáveis em contextos comparáveis
A prova mais valiosa não está nas funcionalidades demonstradas, está nos resultados documentados de clientes com perfis semelhantes ao do seu grupo.

"Semelhante" é a palavra-chave. Um caso de estudo de um resort de luxo de 500 quartos no Caribe não é evidência relevante para um grupo de hotéis urbanos de quatro estrelas em Espanha. O RFP deve exigir explicitamente referências com tipologia de propriedade, dimensão, mercado geográfico e stack tecnológica prévia comparáveis às do grupo, com contacto directo autorizado, não testimoniais de marketing.



O que um bom RFP contém, na prática
Juntando as quatro exigências anteriores, um RFP construído para gerar uma decisão de qualidade deve incluir, no mínimo:
Contexto operacional detalhado do grupo: número de propriedades, tipologia, stack tecnológica actual, volume de reservas e particularidades do mercado.
Os problemas específicos a resolver, ligados a indicadores mensuráveis, não uma lista abstracta de "requisitos funcionais".
Exigência de TCO a três anos, num formato comparável entre fornecedores.
Requisitos claros de integração com os sistemas já existentes na stack, incluindo quem é responsável por cada integração.

Critérios de avaliação com pesos definidos antecipadamente (produto, custo, implementação, suporte, referências), fixados antes de qualquer demo.Exigência de referências verificáveis em contextos comparáveis, com contacto directo autorizado.Prazos e formato de resposta obrigatórios, para permitir uma comparação lado a lado, e não uma colecção de propostas em formatos diferentes.

Um RFP construído desta forma inverte a dinâmica do processo. Deixa de ser o fornecedor a conduzir a conversa, guiado pelo seu próprio guião de vendas, e passa a ser o grupo hoteleiro a ditar os termos da avaliação. A demo não desaparece, mas passa a ser o momento de verificar respostas já dadas por escrito, em vez de ser a primeira e principal fonte de informação.



As perguntas que devem estar no seu RFP, e que os fornecedores raramente ouvem

Sobre o produto:
Qual foi a funcionalidade mais pedida pelos clientes nos últimos doze meses, e quando vai estar disponível?
Qual é a taxa de adopção real da funcionalidade X pelos clientes actuais?
Qual foi o downtime do sistema nos últimos doze meses?

Sobre a implementação:
Qual é o tempo médio de implementação para um grupo com o nosso perfil?
Quantas propriedades similares às nossas implementaram nos últimos seis meses?
Quem é o nosso ponto de contacto durante a implementação, e é a mesma pessoa depois de a implementação estar concluída?

Sobre o suporte:
Qual é o SLA de resposta para problemas críticos? Para problemas não críticos?
O suporte é prestado localmente ou centralizado noutro fuso horário?
Pode falar com um cliente que tenha tido um problema crítico recente, e como foi resolvido?

Sobre integrações:
Qual é o custo total de integração com a nossa stack actual?
Existe uma sandbox onde a nossa equipa de TI possa testar as integrações antes de assinar?
O que acontece às integrações existentes quando lança uma actualização major?



O processo de avaliação que recomendamos
Para grupos hoteleiros que querem tomar decisões de tecnologia com base em evidência, e não em impressão de demo, recomendamos um processo em quatro fases, com o RFP no centro:

Fase 1: Diagnóstico interno
Definir o problema a resolver, os indicadores de sucesso e o orçamento total disponível, incluindo implementação, formação e integrações. Este diagnóstico é a matéria-prima do RFP, sem ele, qualquer RFP fica genérico.

Fase 2: Construção do RFP e longlist
Traduzir o diagnóstico num RFP estruturado, com as quatro exigências acima e critérios de avaliação com pesos definidos antecipadamente. Identificar as soluções disponíveis no mercado e enviar o RFP a uma longlist qualificada. É este documento, e não uma conversa informal, que vai determinar a qualidade de toda a decisão que se segue.

Fase 3: Avaliação estruturada
Analisar as respostas ao RFP antes de qualquer demo. Reduzir a shortlist a dois ou quatro fornecedores com base nessas respostas. Conduzir as demos com um guião definido internamente, a partir do que foi respondido no RFP, exigindo demonstrações sobre os casos de uso específicos do grupo. Solicitar acesso a um ambiente de teste. Falar com referências reais.

Fase 4: Decisão baseada em evidência
Comparar fornecedores com base nos critérios e pesos fixados no RFP, não nas impressões da demo. Envolver TI, operações e gestão no processo de decisão, não apenas quem assistiu às demos.



Uma nota sobre o papel de um consultor independente
Uma das razões pelas quais tantos grupos hoteleiros acabam por decidir pela demo é que raramente têm, internamente, tempo ou experiência para escrever um RFP que resista ao discurso comercial dos fornecedores. Escrever um bom RFP exige conhecer o mercado de soluções disponíveis, saber que perguntas fazer, e saber que respostas evasivas costumam esconder.

É precisamente aqui que um consultor independente, sem relação comercial com nenhum fornecedor, faz a maior diferença: na construção do próprio RFP (critérios, pesos, perguntas certas, formato de TCO comparável) e no acompanhamento de todo o processo que se segue, das respostas dos fornecedores à decisão final.

A diferença entre uma boa e uma má decisão de tecnologia num grupo com dez propriedades pode representar centenas de milhar de euros ao longo de três anos. O custo de um RFP bem construído, desde o início do processo, é uma fracção disso.



Conclusão
As demos de tecnologia hoteleira são inevitáveis, e úteis, quando enquadradas correctamente. O problema não é a demo. É deixar que a demo seja o ponto de partida da decisão, em vez do ponto de verificação de um RFP já rigoroso.

Os grupos hoteleiros que tomam melhores decisões de tecnologia não são necessariamente os que têm equipas de TI maiores. São os que definem primeiro o que querem resolver, traduzem isso num RFP que obriga os fornecedores a responder com factos e não com discurso, e só depois vão à demo, não o contrário.

Se está a iniciar um processo de avaliação de tecnologia e quer garantir que a decisão nasce de um RFP bem construído, e não de uma boa apresentação, fale connosco.

A Hospitech Advisors apoia hotéis e grupos hoteleiros na construção do RFP, na avaliação, selecção e implementação de tecnologia, de forma independente, sem comissões de fornecedores e com foco no impacto operacional real.

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